
O que pode mudar em um jogador prestes a completar 900 jogos pelo mesmo time de futebol?
– Hoje estou mais bonzinho.
Não foi apenas a “bondade” que mudou em Rogério Ceni. Mas é dessa forma, com estilo mais compreensivo, que o goleiro tentará conduzir o São Paulo ao objetivo, quase uma obsessão, comum desde o início de sua carreira: conquistar mais um título da Libertadores.
Disputar o seu jogo de número 900 justo na competição sul-americana é o melhor presente que Ceni poderia receber. Com dois títulos na bagagem (1993, como terceiro goleiro, e 2005, quando foi o principal nome da conquista), o atleta é assumidamente apaixonado pela Copa.
– A Libertadores é o que há. Eu adoro! É outro clima, uma competição curta, disparada a melhor para se disputar. Se o São Paulo ficar um ano sem Libertadores, vai ser estranho – declarou Rogério em sua sétima participação seguida no torneio.
Para chegar ao tricampeonato, o capitão tricolor tem a receita. O time atual, mais qualificado tecnicamente do que o tricampeão em 2005, em sua opinião, precisa resgatar o espírito de luta daqueles jogadores.
– Competitivos. Essa é a nossa palavra. Cada um vai ter de olhar para dentro de si e mudar um pouco suas características. Se não formos mais aguerridos, nossa chance diminui.
E é aí que entra em campo o Ceni “bonzinho”. O goleiro avisa que vai fazer de tudo para levantar mais um troféu, porém, as cobranças serão diferentes. Admirado pelos parceiros, o ídolo revela que a experiência de 899 partidas com a camisa do São Paulo lhe ensinou a ser maleável e tentar entender melhor as pessoas.
– Quando jovem, a gente briga, discute. Mas não posso perder o cara que, um dia, vai precisar entrar. E eu vou precisar tê-lo ao meu lado. Às vezes gostaria de falar algo mais áspero, mas penso duas vezes e motivo.
Amanhã, no início das oitavas de final contra o Universitario (PER), serão milhões de torcedores motivados pelos 900 jogos de seu capitão.
Confira um Bate Bola com Rogério Ceni
LANCENET!: O que significa chegar à marca de 900 jogos pelo São Paulo?
ROGÉRIO CENI: Para mim é muito legal porque são 14 anos jogando como titular em um clube de ponta, que ganhou tudo nos últimos anos. É um time vencedor e a marca demonstra um pouco como é levar a carreira a sério, ter profissionalismo no que escolheu fazer. Pense que são 90 minutos por jogo e o tempo de treinos para estar à disposição em 900 jogos. É muita coisa.
LNET!: Hoje, você sente mais ou menos prazer em jogar futebol?
RC: Adoro jogar, o que me motiva a treinar todo dia são partidas como essa contra o Universitario. O que mudou é o seguinte: quando o São Paulo é campeão, estou bem. Se passa um ano em branco, não estou tanto assim. As pessoas associam muito o momento do time ao meu. Para estar bem de novo, o São Paulo precisa ganhar um título de expressão o mais rapidamente possível. Mas é mais fácil e mais prazeroso jogar, tenho mais segurança e experiência. O que mudou foi o ritmo de treino. Antes eu chegava meia hora antes e ia embora meia hora depois. Agora, aos 37 anos, meus treinos duram cinco horas. Isso é difícil.
LNET!: O que falta para ser campeão?
RC: Temos peças para sermos campeões, precisamos fazer com que elas funcionem. Temos de ser mais competitivos, principalmente quando estamos sem a bola. Hoje o São Paulo mudou, tem jogadores leves, então todos precisam ajudar sem posse de bola.
LNET!: Você disse que precisa falar mais. Está se achando quieto?
RC: Não quieto, mas você fica mais velho e entende melhor as pessoas. Quero ajudar, ver se há algum problema. O técnico não consegue agradar a todos, ele agrada 11. Para um menino, ficar no banco é uma vitória, mas os mais experientes ficam chateados. E não podemos perder a proximidade com o cara para poder cobrar, incentivar. Quando é coisa boa, falo publicamente. Se é ruim, fico quieto, tento ajudar. Quando você ganha, é um grande líder. Se perde, não é tão bom assim. Tudo está ligado a vencer.
LNET!: O Peru traz boas lembranças para sua carreira, não é?
RC: Fiz o meu primeiro gol fora do Brasil aqui em Lima, e justamente em meu primeiro jogo de Libertadores, contra o Alianza. Era a estreia do São Paulo em 2004. E na Conmebol, em 1994, fiz uma grande partida contra o Sporting Cristal, terminou 0 a 0. Espero que não seja diferente agora, contra o Universitario.
Clima
“Daqui para frente, o Morumbi não vai receber menos de 55 mil pessoas. Estádio cheio é diferente”
Bola
“Saímos daquela horrível do Paulista, que é pesada, nunca vi bola tão ruim. Essa é melhor”
Objetivo
“A meta final é a mais importante, você ganha a Libertadores e joga o Mundial. É a motivação!”
Arbitragem
“Contra o Santos, qualquer encostadinha era falta. Aqui são 20 por jogo, é muito mais verdadeiro”
Adversários
“É gostoso pegar times de outros países, sobretudo argentinos e uruguaios. O clima é excelente”
Alexandre Lozetti
ENVIADO ESPECIAL A LIMA (PER)
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